sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Vítima de criminoso resolve processar ministro Gilmar Mendes

Vítima de Abdelmassih decide processar Gilmar
Vanuzia Leite Lopes, de 54 anos, conta ter desenvolvido síndrome do pânico em 2008, após ter enfrentado juíza e os advogados de Roger Abdelmassih no tribunal; ela foi estuprada duas vezes por ele em 1993; "Depois de dois anos comecei a melhorar. Então, o [ministro do STF] Gilmar Mendes soltou ele. Piorei de novo"; "Decidi que vou entrar com uma representação contra Mendes, por sofrimento desnecessário", anuncia a vítima, que disse ter começado a estudar direito para entender "como podem ter soltado um homem que foi condenado com a maior pena por estupro"; ministro, à época presidente do Supremo, soltou Abdelmassih em 2009, na véspera de Natal, sob o entendimento de que, como ele estava impedido de exercer a profissão, não fazia mais sentido mantê-lo preso.

247 – Uma das 39 mulheres que denunciaram terem sido abusadas por Roger Abdelmassih, Vanuzia Leite Lopes, de 54 anos, anuncia que decidiu processar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes. Em 2009, o então presidente da Corte foi responsável por soltar Abdelmassih, na véspera de Natal, sob a alegação de que, como ele estava impedido de exercer a profissão, não fazia mais sentido mantê-lo preso.

O médico, que tinha uma das maiores clínicas especializadas em reprodução assistida no Brasil, estava preso preventivamente desde agosto daquele ano, sob a acusação de estuprar pacientes. "O argumento de que, em liberdade, poderia o paciente voltar a cometer a mesma espécie de delito em sua atividade profissional assenta-se em mera especulação, sem mínima base fática", justificou Gilmar Mendes à época.

Após a prisão de Abdelmassih no Paraguai essa semana, relatos das vítimas vieram à tona e Vanuzia contou que, por conta dos dois estupros que sofreu do então médico, desenvolveu síndrome do pânico. Segundo ela, os sintomas do problema vinham melhorando, mas quando o criminoso foi solto por Mendes, ela piorou de novo.

Em 1993, ano do crime, ela disse ter ido à delegacia e ao conselho de medicina, mas ninguém lhe deu ouvidos. "Em 2008, sofri outro estupro, digamos assim. Tive que contar minha história na frente da juíza, enfrentar os advogados dele, enfrentar esse homem de novo. Aí que eu desenvolvi síndrome do pânico", disse Vanuzia à Folha de S. Paulo.

"Depois de dois anos comecei a melhorar. Então, o Gilmar Mendes [ministro do STF] soltou ele. Piorei de novo", prossegue. "Decidi que vou entrar com uma representação contra Mendes, por sofrimento desnecessário. Sofremos abuso, a sequela do abuso, a exposição durante processo. E sofremos agora, de novo, para colocá-lo na cadeia".

A vítima relata ainda ter decidido estudar direito para entender como uma decisão como essa era possível. "Eu comecei a estudar direito para justamente entender como podem ter soltado um homem que foi condenado com a maior pena por estupro, que pegou as vítimas no momento mais vulnerável".

Padilha: Transformar a riqueza paulista em uma vida melhor para a população

Chega de intermediárias: Neca Setubal para presidente!


Na década de 1960, quando o embaixador norte-americano Lincoln Gordon dava seguidas e constrangedoras demonstrações de poder junto aos generais que tentavam dar a impressão de mandar no Brasil após o golpe militar, o jornalista Paulo Francis cunhou uma frase que ficou famosa: “chega de intermediários. Lincoln Gordon para presidente.”

Sessenta anos se passaram e o Brasil mudou bastante desde então. Morto em 1997, o próprio Paulo Francis tornou-se um barítono da direita brasileira, servindo de mestre para um conservadorismo que não conseguia renovar-se por si próprio.

O país se democratizou, os brasileiros fizeram uma constituição democrática e, dentro de poucas semanas, irão votar para presidente pela sétima vez consecutiva, em ambiente de paz e plena liberdade de expressão — isso nunca aconteceu na república brasileira, em período algum.

Com um histórico de desigualdade e exclusão, na última década o país conseguiu avanços memoráveis na luta contra a pobreza, por uma melhor distribuição de renda. É inegável.

Mas nem tudo se modificou, como mostra Fernando Rodrigues, na Folha de hoje.

A entrevista de Maria Alice Setúbal, a herdeira do Itaú, que, manda a tradição aristocrática brasileira, prefere ser tratada em público como Neca, apelido familiar, é um assombro.

Educadora, por profissão, Neca é, também, bilionária por herança. É uma conversa sem rodeios nem inibições. Desde a confirmação da candidatura Marina, a herdeira do Itaú foi confirmada como coordenadora do programa de governo. Lembra de Antonio Palocci, que teve um papel essencial na estruturação do governo Lula, depois da vitória de 2002, inclusive com a Carta ao Povo Brasileiro? Seu lugar no organograma era o mesmo. Imagine o poder de Neca.

Maria Alice fala do ponto mais importante: autonomia do Banco Central, medida que, nós sabemos, concentra o ponto fundamental da campanha de 2014 — permitir ao sistema financeiro recuperar o controle absoluto da política econômica, definindo a taxa de juros conforme análises e projeções de instituições privadas que atuam no mercado.

Nós sabemos que, hoje, o governo Dilma procura manter a inflação sob controle e tem obtido vitórias importantes — há quatro meses os preços estão em tendência de queda e as projeções indicam um movimento semelhante no próximo levantamento. Apesar disso, o governo não abre mão de proteger os salários e de tomar toda medida a seu alcance para manter o emprego, em seu mais baixo nível da história. Isso só é possível porque, mesmo sem dar ordens ao Banco Central, a presidência da República tem o poder de indicar e demitir seu presidente.

A autonomia do BC é a senha para se mudar isso. Em vez de deixar a política econômica em mãos de tecnocratas que respondem a uma autoridade eleita, o que se quer é dar independência aos diretores do banco, que passam a ter mandato e assim por diante. Independência de quem? Das autoridades que de uma forma ou outra expressam a soberania popular.

Eduardo Campos já havia se declarado a favor da autonomia do BC, postura que causou espanto nos aliados que recordavam a herança do avô Miguel Arraes. Marina disse na época que não era favorável. Parecia resistir. “Enfim”, concordou, explica Maria Alice, esclarecendo que se quer definir o assunto em lei.
Criado pela ditadura militar, o Banco Central brasileiro guarda uma peculiaridade em comparação com originais estrangeiros. O Federal Reserve Americano, por exemplo, tem o dever de defender a moeda do país — e o emprego dos cidadãos. Essa missão com duas finalidades está lá, em mármore, na porta da instituição. No Brasil, não há referência ao emprego. Outros tempos, outros governos. Entendeu, né?

A coordenadora Maria Alice não é uma eleitora qualquer, cujo voto representará 1/100 milhões na eleição. O Itaú é um gigante com US$ 468 bilhões de ativos em 2013. É um número respeitável por qualquer padrão, inclusive internacional. Numa lista com os 15 maiores bancos dos Estados Unidos, o Itau fica a frente de nove em ativos. Mas não é só.

Se você comparar a rentabilidade sobre o patrimônio, o banco da coordenadora da campanha de Marina supera mesmo os maiores bancos da maior economia do planeta. Diz a consultoria Econométrica que em 2013, o Itaú teve um rendimento da ordem de 16,70% sobre o patrimônio, algo perto de US$ 70 bilhões, só no ano.

Só para você ter uma ideia, o US Bancorp, mais lucrativo banco dos Estados Unidos, teve uma rentabilidade de 15,48%. Os maiores bancos dos EUA estão longe de exibir um desempenho comparável ao Itaú, no entanto.O Morgan, com um patrimônio mais de quatro vezes maior do que o Itau, teve um rendimento 50% menor, em termos relativos. O rendimento do Citi, três vezes maior, teve um rendimento de equivalente a um quatro daquele auferido pelo Itau, em termos proporcionais.

O Itau não é o único banco brasileiro nessa posição. Bradesco e Banco do Brasil sobrevivem em ambiente muito parecido. A diferença é que os concorrentes não colocaram uma herdeira no comando de uma campanha presidencial, o que dá um grau de proximidade particularmente perigosa.

O Banco Central que a coordenadora Maria Alice quer autônomo já define, hoje, a taxa básica de juros e isso explica a força do setor financeiro no país. Caso essa situação seja colocada em lei, a situação ficará ainda pior.

Protegidos por uma taxa de juros que já foi muito mais alta no governo de Fernando Henrique Cardoso, mas segue uma das maiores do mundo, os bancos crescem e engordam recebendo rendimentos pelos títulos do governo. Com os lucros do rentismo, os bancos não tem necessidade de emprestar ao empresário nem ao consumidor, atividade que está na razão de sua existência, no mundo inteiro. A taxa média anual de juros nos empréstimos bancários, em 2013, foi de 27,3% no Brasil. Uma barbaridade. Só em Madagascar (60) e Malawi (46%) esse ganho foi maior. No Canadá ficou em 3%. Na China, em 6%. Na Itália, em 5,1% e na Suíça, 2,6%. Nos Estados Unidos, ficou em 3,2%, ou oito vezes menor do que no Brasil. Na Inglaterra, ficou em 0,50%, mais quarenta vezes menor.

Dá para entender, assim, a desenvoltura de Maria Alice Setubal.

Pode parecer arrogância, mas não é isso. É pura expressão de uma realidade política profunda. Alguém reclamava na França do Século XVII quando o Rei Sol dizia que “o Estado sou eu?” Era natural, vamos combinar.

Sem demonstrar inibições maiores, a herdeira do Itau faz críticas diretas ao estilo de Dilma Rousseff. Avançando num argumento que reúne varias camadas de preconceito, nem sempre invisíveis, falou que a presidente exerce uma “liderança masculina.” Vinte e quatro horas depois que a candidatura de Marina provocou a saída de dirigentes históricos do PSB da campanha, ela achou conveniente definir Dilma como “desagregadora”.

Marina trouxe uma representante do 1% do PIB mundial para o comando de sua campanha.

É aquela turma que atua por cima dos estados nacionais e tem ligações frágeis com as respectivas populações porque seu horizonte é o mercado global. Como se aprende com o Premio Nobel Joseph Stiglitz, são esses interesses que impedem uma recuperação firme após a crise de 2009. O povo foi a rua em várias versões de ocupação e nada acontece. O 1% não quer e não deixa.

As grandes instituições financeiras seguem dando as cartas do jogo, mesmo depois de suprimir 60 milhões de empregos e destruir o futuro de várias gerações de trabalhadores.

O que a turma de 1% quer é eliminar o Estado de Bem-Estar Social aonde existe, ou impedir seu crescimento, ande está para ser construído. Isso porque ele funciona como uma garantia contra a reconcentração de renda e preservação dos direitos democráticos, que nem sempre comovem os mercados. Em alguns países do mundo, a força destruidora da crise não fez seu trabalho. Um deles é o Brasil, onde o governo de Luiz Inácio Lula da Silva se recusou a tomar medidas que criariam uma Grécia infeliz e sem futuro na América do Sul. Vem daí a campanha de ódio contra seu governo e contra sua sucessora.
É isso e apenas isso.


Paulo Moreira Leite é diretor do 247 em Brasília. É também autor do livro "A Outra História do Mensalão". Foi correspondente em Paris e Washington e ocupou postos de direção na VEJA, IstoÉ e Época. Também escreveu "A Mulher que Era o General da Casa".

Antes de começar, campanha de Marina entra em crise


Não deu outra. Bem que avisei, desde o primeiro dia, que isso não daria certo. Antes mesmo de começar a campanha, no dia em que foi ungida candidata a presidente pelo PSB, Marina Silva abriu a primeira grande crise na estranha aliança ambientalista-socialista, ao bater de frente com o pessebista histórico Carlos Siqueira, que era uma espécie de José Dirceu de Eduardo Campos, coordenador-geral da campanha presidencial do ex-governador pernambucano, que morreu num acidente aéreo na semana passada. Como escrevi aqui outro dia, o mundo de Marina se divide entre quem manda e quem obedece. Quem manda é ela. Siqueira não obedeceu e já caiu fora.

"Não tenho magoa nenhuma dela, apenas acho que quando se está numa instituição como hospedeira, como ela é, tem que respeitar a instituição, não se pode querer mandar na instituição. Ela que vá mandar na Rede dela, porque, no PSB, mandamos nós", desabafou o ex-chefe da campanha de Eduardo nesta quinta-feira, ao deixar a reunião do PSB com partidos coligados, em Brasília, para oficializar a nova chapa presidencial.

O que todo mundo já sabia, mas era escondido pela grande imprensa familiar, que queria garantir um segundo turno na eleição presidencial, Siqueira botou para fora a guerra surda da aliança de Eduardo com Marina: "Acho que ela não representa o legado de Campos. Eu não vou fazer campanha pra ela porque eles eram muito diferentes, politicamente, ideologicamente, em todos os sentidos."

Para o lugar de Siqueira, Marina autocraticamente nomeou Walter Feldman, seu fiel aliado, fundador do PSDB e secretário de vários governos tucanos. O último cargo público que ocupou, antes de trocar o PSDB pelo PSB, quando ajudava Marina a criar a Rede Sustentabilidade, que não deu certo, foi o de "Secretário Especial de Articulação de Grandes Eventos" da Prefeitura de São Paulo. Alguém pode imaginar o que seria isso?

Tratava-se de uma bela mordomia em Londres, que durou seis meses e foi custeada pelos nossos impostos, em que Feldman foi encarregado de acompanhar as Olimpíadas na Inglaterra para dar sugestões à Prefeitura de São Paulo, na época comandada por Gilberto Kassab, sucessor e aliado do tucano José Serra. Como as próximas Olimpíadas serão sediadas no Rio, e não em São Paulo, ninguém entendeu até agora qual era o objetivo da sinecura de Feldman em Londres. É desse tipo de gente que Marina está cercada, incluindo herdeiras de bancos, economistas tucanos e altos empresários de cosméticos.

Em seu relatório final sobre seu trabalho em Londres entregue à prefeitura de São Paulo, Feldman concluiu com o seguinte ensinamento, no melhor estilo Marina Silva: "As atividades que envolvem um grande contingente populacional devem ter toda a área de prevenção e análise de riscos, planejamento, agregação e uma retaguarda especializada, com experiência internacional, para monitorar, dar suporte e formar uma rede de ação, a qual, desenvolvida em São Paulo, deverá atuar como fio condutor para o Brasil". Maravilha!

Entenderam? Pois é isso que nos espera nas propostas a serem apresentadas por Marina Silva na campanha presidencial, a julgar pelas ininteligíveis propostas que a candidata e seus fiéis seguidores apresentaram até agora. Salve-se quem puder, ou quem tiver juízo.

Itaú assume comando de campanha de Marina

Neca, do Itaú, já dá as cartas no governo Marina 
Coordenadora do programa de governo de Marina Silva, Maria Alice Setubal, herdeira do Itaú, assegura que a candidata socialista dará autonomia ao Banco Central e irá perseguir uma meta de inflação de 4,5% no primeiro ano, que cairá para 3% nos anos seguintes, o que demandaria taxas de juros maiores; ela também minimizou a falta de experiência de Marina, que, segundo ela, contará com "operadores de mercado" em sua equipe; por fim, atacou a presidente Dilma; “Toda essa fala da Dilma gestora se desfez ao longo de quatro anos", afirmou.

247 – Madrinha de Marina Silva, Maria Alice Setubal, a Neca, coordenadora do programa de governo do PSB, minimiza a falta de experiência da candidata e sinaliza aproximação com o mercado.

Em entrevista à Folha, ela afirma que a presidenciável manterá os compromissos feitos anteriormente por Eduardo Campos a respeito de conceder autonomia formal, por lei, ao Banco Central. Diz que, ao longo da campanha, mais economistas "estarão se aproximando".

“Hoje, temos uma presidente cujo perfil é de gestão, pragmático, racional. Talvez o oposto da Marina. E o resultado que nós temos é bastante insatisfatório. Toda essa fala da Dilma gestora se desfez ao longo de quatro anos. O mercado visualizando as pessoas que estão ao lado dela vai ter muito mais segurança. Ela já tem vários economistas. Terá outras, mais operadoras", afirma.

Neca disse que a meta de inflação num eventual governo Marina permanecerá em 4,5%, com foco em chegar a 3% a partir de 2019.
Quanto à gestão de Dilma Rousseff, avalia que a petista "tem uma incapacidade de ouvir. Desagrega" (leia mais).

Marina destrói o PSB em 24 horas

Divisionista, Marina faz 'strike' no PSB de Campos
Não há mal-entendido; nas primeiras 24 horas após ser indicada candidata pelo PSB, Marina Silva abalou, de cima até embaixo, estrutura partidária e alianças firmadas, uma a uma, por Eduardo Campos; coordenadores Carlos Siqueira e João Câmara, puxador de votos em Minas Gerais Alexandre Kalil, governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, e deputado Nelson Trad (MS) deixam campanha; "O que me interessava no partido caiu de avião", disse, em seu estilo rude, o presidente do Atlético Mineiro; ex-coordenador Siqueira rompeu relações chamando Marina de "grosseira"; ela alegou "mal-entendido"; o que fica demonstrado, porém, é que o personalismo de Marina não admite diálogo, convivência e, menos ainda, contestação; depois de sair do PT, dividir o PV e abortar o Rede, ex-ministra derruba pinos no PSB; strike!
Marco Damiani _ 247 – Não há mal-entendido, apesar de ter sido esta a alegação da ex-ministra Marina Silva para a saída do coordenador de campanha Carlos Siqueira. Assim como ele fez ontem, no momento seguinte após dizer à candidata que rompia relações com ela, em reunião da cúpula do PSB, nesta quinta-feira 21 o partido sofreu novas perdas. Todas elas estratégicas, que haviam sido amarradas, uma a uma, pessoalmente, pelo ex-governador Eduardo Campos.

Nas primeiras 24 horas de candidata a presidente, ainda que não tenha registro no TSE e já tenha iniciado sua propaganda, Marina fez um verdadeiro 'strike' em seu próprio time – expressão usada no boliche quando o jogador derruba, com uma única jogada, todos os dez pinos de um vez.

Puxador de votos do PSB em Minas Gerais, pelo fato de ser presidente do Clube Atlético Mineiro, o empresário Alexadre Kalil desistiu de ser candidato a deputado federal. Ele havia sido convencido por Campos a disputar, mas agora não vou motivos para prosseguir:

- O que me interessava caiu de avião, disse Kalil, numa rude referência, como é de seu estilo, ao acidente que vitimou o presidenciável socialista.

No Mato Grosso do Sul, outro puxador de votos, o deputado federal Nelson Trad anunciou que não há hipótese de pedir votos para Marina, em razão de suas ligações históricas com o agronegócio de sua região e de ela nem querer conversa com esse setor da economia.

Na mesma toada, o experiente governador André Pucinelli, verdadeiro campeão de votos no Estado, anunciou que irá cerrar fileiras na campanha da presidente Dilma Rousseff. Após uma série de conversas com Eduardo Campos, ele se preparava para entrar na campanha do presidenciável do PSB. Bastou, no entanto, Marina mostrar seu estilo que Pucinelli correu para o outro lado.

Em Pernambuco, novo golpe. Depois que Siqueira deixou a coordenação da campanha de Marina sob a alegação de ela ter sido "grosseira", na mesma quinta 21 o indicado para ser seu substituto, Milton Coelho, não aceitou assumir o cargo. E, ainda, deixou vaga a posição de coordenador nacional de Mobilização e Articulação.

- Havia um pacto com meu querido amigo Eduardo Campos, mas minha tarefa acabou aqui, justificou ele, lembrando que trabalhou para Campos, em posições centrais, em três campanhas eleitorais.

A tomar-se pelo histórico de Marina Silva, as defecções não devem causar surpresa. Eleita senadora pelo PT, ela deixou o partido atirando depois de ocupar durante cinco anos, nas duas gestões de Lula na Presidência da República, o Ministério do Meio Ambiente. Abrigada com seu grupo no PV, obteve 17% dos votos válidos da eleição de 2010, mas dois anos depois, com estardalhaço, saiu, com seus amigos, depreciando a legenda. Partiu, então, para montar o Rede. Dependendo de seus próprios esforços, no entanto, não foi feliz. Com falta de assinaturas em número legal suficiente, apesar de ter desfrutado de quase um ano para atender a legislação, Marina iria ficar fora da sucessão presidencial de 2014. Mas Campos, com seu poder de articulação, a convenceu a entrar no PSB.

Mesmo dentro do partido, Marina gosta de declarar que estava presente para ter novas condições, a partir de 2015, de montar o seu próprio: o Rede Sustentabilidade.


Neste momento, além de estancar as sangrias que o estilo personalista de Marina vai causando no PSB, a cúpula do partido se esforça para que ela deixe de lado, ao menos no discurso, a ideia de mudar de agremiação logo no próximo ano.

Estar em uma legenda anunciado estar montando outra, no entanto, não é a única contradição de Marina. Sua falta de tato para manter os acordos firmados por Campos ainda irão provocar mais rachas no PSB. Apesar de indicada, ela a candidatura dela ainda não foi oficializada no TSE - o que faz com que muitos socialistas já queiram voltar atrás, apesar de a campanha estar nas ruas.

Marina já avisou que não vai aceitar contribuições financeiras de bancos e de indústrias de bebidas. O PSB contava com recursos de doadores desses setores para alavancar a campanha da legenda. Mas agora tudo é dúvida.

Certeza, apenas, o fato de Marina ter como principal coordenadora de seu programa de governo, com 250 páginas, numa intersecção de propostas do Rede e do PSB, por Neca Setúbal. Trata-se da herdeiro do maior banco privado do País, o Itaú Unibanco. Para Marina, isso pode, mas não conviver com quadros históricos o PSB não, isso não pode.

Na política, um histórico e um posicionamento como os de Marina têm um só nome: divisionismo. Com este germe dentro de um partido, a unidade é corroída por dentro. Nas suas primeiras 24 horas como candidata no lugar de Campos, que, na mesma linguagem, pode ser chamado de unitário, Marina mostrou que tem um poder destrutivo à altura, na direção contrário, do que se espera que ela possa construir.

Política do tipo voluntarista e chamada de personalista, Marina resgata agora outro carimbo: divisionista.

Folha coloca sob suspeita de fraude avião em que voava Campos. E indícios são fortes.



TijolaçoAutor: Fernando Brito

Passei algumas horas a levantar um assunto sobre o qual não publiquei nada ainda por tratar-se de algo que, sem certeza absoluta, a gente não fala nem na base do “talvez”.

Foi a partir da coluna de Mônica Bergamo, na Folha, que dá o pontapé inicial num noticiário extremamente pesado.

O da propriedade do avião que vitimou Eduardo Campos.

Não vou fazer juízo de valor, apenas republicar o que a Bergamo divulgou, de manhã.

Um grupo de empresários de Pernambuco deve divulgar uma nota ainda nesta quinta assumindo que estava comprando a aeronave em que o presidenciável Eduardo Campos viajava.

Desde o acidente, na semana passada, em Santos, o nome do operador do avião está envolto em mistério. A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) abriu investigação para descobrir o verdadeiro dono da aeronave.

O avião, de prefixo PR-AFA, está em nome Cessna Finance Export Corporation, mas era operado pelo grupo Andrade, do setor sucroalcooleiro em Ribeirão Preto (SP). Ele foi colocado à venda por cerca de US$ 7 milhões.

Um empresário pernambucano, João Carlos Pessoa de Melo, procurou a corretora que representava a Andrade, em maio, e assinou compromisso de compra do avião.

Ao mesmo tempo, uma outra empresa, a Bandeirantes Companhia de Pneus, assumiu o leasing frente à Cessna. Oito prestações já teriam sido pagas pelo grupo de empresários. O valor seria abatido no final da operação de compra e venda.

O grupo pernambucano não quis falar com a Folha. O advogado Ricardo Tepedino, da Andrade, confirma as informações. E diz que elas já foram encaminhadas à Anac.

A Folha, porém, já foi adiante e em reportagem de Mauro César Carvalho levanta a suspeita:

“O avião pertencia ao grupo Andrade, dono de usinas de açúcar na região de Ribeirão Preto, que está em recuperação judicial, e só poderia ser vendido com autorização judicial”

Daí em diante, o caso vira um embrulho onde se suspeita de uma operação fictícia, destinada a fraudar credores da Andrade.

Mas também na ponta “compradora”, os personagens são nebulosíssimos.

“O avião Cessna foi vendido a João Carlos Lyra Pessoa de Mello Filho e Apolo Santana Vieira, ambos de Pernambuco, segundo documento do grupo Andrade enviado à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e revelado pela coluna Mônica Bergamo, da Folha. Mello Filho é usineiro e era amigo de Campos, segundo a Folha apurou.”

João Paulo Lyra Pessoa de Mello (ou seu filho, como a matéria induz a crer) era um personagem metido em problemas por convênios com o Ministério da Ciência e Tecnologia, que foi ocupado por Eduardo Campos e, depois, por seus indicados do PSB. Foi com um indicado de Campos, Sérgio Resende, que uma ONG ligada a ele firmou dezenas de convênios, segundo o Estadão.

Da mesma forma, um João Paulo Lyra Pessoa de Mello e seu irmão Eduardo, usineiros em Pernambuco, foram condenados em 2011 por assassinar um rapaz, Alexandre dos Santos Correia, numa boate do Recife, crime ocorrido em 1999. Não sei se foram inocentados em segunda instância, após o Tribunal do Júri lhes dar penas de 14 e 15 anos.

Exceto se for o caso de homonímia, o que desde já deixo ressalvado, apesar de incrível, a coisa vai dar panos para manga.

O outro comprador do avião, Apolo Santana Vieira já foi denunciado pelo Ministério Público Federal  por fraude na importação de pneus chineses em Pernambuco.

Ramo em que opera também a  tal Bandeirantes que teria feito o leasing do avião. A Bandeirantes tem capital registrado de R$ 2 milhões, incompatível com a compra de um jato de US$ 7 milhões.

O caso é tão escabroso que tem cara de ter brotado, como o caso Lunus, de algum “saco de maldades”.

Portanto, é preciso muito cuidado para não acusar quem não pode se defender ou dar explicações.

Mas é também impossível que um acidente com tamanha repercussão não vá ser investigado também no que diz respeito aos donos do avião.


Esperemos para ver aonde vai a apuração da Folha. Peço que, nos comentários, ninguém se precipite ou acuse sem provas.

O melhor, nestas horas, é esperar a verdade sem histeria, com respeito, mas também sem encobrimentos.

Lula: mídia é o principal partido de oposição

247 - No programa eleitoral do PT desta quinta-feira (21), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou "uma das piores campanhas negativas de certa imprensa que se tornou o principal partido de oposição".

Segundo ele, a mídia esconde os feitos do governo Dilma e voltou a pedir voto para sua afilhada política.

"Eu tenho certeza que você já está surpreso com tanta coisa que a Dilma fez e que você não sabia", disse.

"Essa campanha vai servir exatamente para isso. Para você ver como certa imprensa gosta mais de fazer política do que informar bem. Como só consegue falar mal e é capaz de esconder obras fundamentais, que estão transformando o Brasil", atacou Lula.

O ex-presidente disse que sua sucessora fez "muita coisa, muita mesmo" e que só conseguiu isso porque fez um governo de continuidade. Ao mesmo tempo, não esqueceu do desejo de mudança expresso pela maioria da população em pesquisas.

"Por isso eu lhe peço: não deixe a mudança parar, não deixe o Brasil parar de mudar."

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Síndrome de Estocolmo


Pátria e Família

Veja o Segundo Programa de Dilma na TV

Tio Rei: Marina Silva matou o PSB

Reinaldo Azevedo

Pronto! Marina enterrou Eduardo Campos. Líder da Rede já jogou no lixo os primeiros compromissos e deu um pé no traseiro do PSB. Quem está surpreso? Ou: de novo, a vespa e a joaninha inocente
A vespa se aproxima da Joaninha inocente; o objetivo é injetar um ovo em seu
abdômen sem que a coitadinha perceba. Nem dói…
Depois de algum tempo, a Joaninha passa a carregar a estrovenga, como um zumbi,
uma morta-viva. Assim que a nova vespa nascer, a hospedeira morre… para valer
O PSB oficializou nesta quarta-feira a candidatura de Marina Silva à Presidência da República, tendo o deputado Beto Albuquerque (PSB-RS) como vice. Para não variar, tudo está sendo feito de acordo com as exigências de… Marina. O partido que a recebeu já foi transformado em mero hospedeiro. Ela não está nem aí para a legenda que a abrigou. Pois é… Eu sempre disse que seria assim. Vamos ver?

1: Marina disse há quatro dias que acataria os acordos regionais feitos por Eduardo Campos. Isso não vale mais: ela só vai subir em palanques em que todos os partidos pertençam à coligação nacional. Isso exclui São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio.

2: O comando do PSB afirmou que Marina assinaria uma carta de compromisso mantendo os fundamentos do programa que Campos queria para o país. Marina já deixou claro que não assina nada.

3: O PSB tinha o comando da campanha de Eduardo Campos, que estava a cargo de Carlos Siqueira. Marina resolveu dividir a função com o deputado federal marineiro Walter Feldman (SP). Na prática, todo mundo sabe, Siqueira foi destituído.

Vale dizer: Marina está, como sempre, fazendo tudo o que quer, do modo que quer, na hora em que quer. Para alguma melancolia deste escriba, acabo de ouvir na TV uma jornalista a dizer que isso só prova a… “coerência” de Marina. É mesmo, é? Entre a burrice e a desinformação, acuso as duas.

Feldman, agora seu braço-direito, é um portento da “nova política” que Marina diz abraçar. Foi secretário do governador Mário Covas e dos prefeitos José Serra e Gilberto Kassab. Só não se tornou secretário de Saúde do então prefeito Paulo Maluf porque Covas não deixou. Saiu do PSDB atirando contra o governador Alckmin e voltou tempos depois, fazendo uma espécie de mea-culpa. Durou pouco a fidelidade. Ainda como deputado tucano, juntou-se aos marineiros e passou a comandar a resistência a qualquer acordo com o PSDB em São Paulo. Não se trata de uma sequência para depreciá-lo. Trata-se apenas de fatos.

É claro que Feldman vai atuar contra a candidatura de Alckmin à reeleição. Até aí, tudo bem, né? Faça o que quiser. Ocorre que o candidato a vice na chapa do governador é o deputado Márcio França, do PSB, partido ao qual, formalmente ao menos, Marina e seu coordenador pertencem. Aliás, depois de Campos, França era a liderança de maior expressão nacional da legenda, que tem uma grande chance de ocupar um posto político importantíssimo no Estado mais rico do país e com o maior eleitorado.

Se Marina já deixou claro que não vai respeitar os acordos firmados por Campos, ainda que esteja ocupando o seu lugar, por que ela respeitaria o programa do PSB caso se eleja presidente da República? A minha tarefa é fazer a pergunta. A dela é cuidar da resposta.

Olhem aqui. No dia 19 de dezembro de 2013, escrevi um post em que comparava Marina a certa vespa que usa outros insetos, especialmente a joaninha — ainda viva — para depositar seu ovo. A estrovenga é injetada diretamente no abdômen da vítima, que carrega, então, a larva até que uma nova vespa venha à luz. Quando esta nasce, o hospedeiro morre. O nome disso é “parasitoidismo”, que é diferente do parasitismo, que não mata o hospedeiro. Há oito meses, portanto, com Campos ainda vivo, afirmei que era precisamente isso o que Marina faria com o PSB. Como eu sabia? A partir de determinado momento, ela tentou ser um parasitoide do PT, com agenda própria. Foi repelida. Buscou fazer o mesmo com o PV. Foi repelida outra vez — e sua grande votação não levou a um aumento da bancada da legenda. Era o partido do “Eu-Sozinha”. Terminada a eleição, tentou tomar a direção dos Verdes. Não conseguiu e saiu para fundar a Rede. Agora, no caso do PSB, não sei, não, parece que o ovo foi parar no abdômen da legenda.

Ganhe Marina a eleição ou não, tão logo ela migre para a sua Rede, o PSB será menor do que era antes da sua entrada. Na nova legenda, aí sim, ela será, como sempre quis, em sua infinita humildade, Igreja e Estado ao mesmo tempo; rainha e autoridade teológica. E sempre cercada de fanáticos religiosos, com diploma universitário.

A morte como campanha


Marina Silva e os interessados na projeção eleitoral do PSB saem da comoção para a apelação, sem limite algum, ao morto reduzido a cabo eleitoral.

A crítica de Marina Silva a seus adversários por "exploração" da morte de Eduardo Campos não tem cabimento e tem um reverso. Dilma Rousseff e Aécio Neves não ultrapassaram, como candidatos, o que poderiam dizer como pessoas do conhecido ou amigo desaparecido. A própria Marina Silva e os interessados na projeção eleitoral do PSB, porém, saem da comoção para a apelação, sem limite algum, ao morto reduzido a cabo eleitoral.

A política brasileira não precisa de mais indignidades e feiuras.

Nada a ver com a intenção da família de dar vida a Eduardo Campos na memória geral. Mas não é menos do que exploração imoral uma atitude como esta do candidato ao governo de Pernambuco, Paulo Câmara, indicado por Eduardo e em dificuldade nos seus magros 13% de aceitação eleitoral: "Agora, quem está com Eduardo Campos está com Paulo Câmara e quem não está com Paulo Câmara não está com Eduardo Campos".

Ou, vindo do sucessor de Eduardo Campos na presidência do PSB, Roberto Amaral: "Depois de Arraes e de Eduardo, nosso partido tem uma nova liderança que representa não apenas a alma pernambucana, mas também a alma brasileira. A grande liderança do partido hoje é Renata Campos". Dedução imediata: não por graça do talento político que a viúva tenha, mas por induzir, para efeitos políticos, a lembrança comovida do morto.

É difícil imaginar a acomodação que Marina Silva fará entre suas (pouco) expressadas ideias e os condicionamentos que a candidatura pelo PSB lhe impõe. Já está aí a concessão que faz –ela, que não admitiu a aliança com o governador Geraldo Alckimin– ao aceitar como seu vice o deputado Beto Albuquerque, combativo destaque na tropa dos transgênicos da Monsanto no Congresso. Não é a falta de temas que leva Marina Silva e seus aliados, forçados ou não, a fazerem da morte de Eduardo Campos o seu marketing.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

PSB perde a presidência da República hoje


Momentos antes da candidatura de Marina Silva ser oficializada, em evento anunciado para a tarde desta quarta-feira, mas que prolongou-se noite adentro, o Partido Socialista Brasileiro enfrentava um ambiente menos festivo do que se poderia imaginar. Para além de toda dor provocada pela morte de Eduardo Campos, um líder que soube se impor pela força de mando mas também pela capacidade de oferecer respostas políticas que agradaram a maioria do partido, ficou uma questão grande demais para ser ignorada, mas grave demais para ser discutida abertamente. A candidata não é do PSB, não pensa como o PSB, não tem amigos no PSB nem irá governar, em caso de vitória, com o PSB.

Perdemos a eleição hoje, disse um auxiliar dos socialistas, subindo as escadas da sede nacional do PSB, em Brasília — que fica numa sobreloja da Asa Norte, num conjunto de salas que, pelo caráter austero, lembra uma escola de computação. “O que é combinado não é caro,” afirmou o governador do Espírito Santo, Renato Casa Grande, ao chegar, depois de participar, no Lago Sul, de uma reunião de dirigentes do partido com a própria Marina. Nem todos os detalhes do acordo entre Marina e o PSB são conhecidos e é provável que muitos deles jamais se tornem públicos. O certo é que, ao longo do dia, os dirigentes do PSB se encarregaram de amassar e colocar na lata do lixo uma ideia exótica que havia circulado na véspera — a de obrigar a candidata a assinar uma carta com compromissos com o partido sob condição de garantir sua candidatura.

Marina Silva não se tornou candidata presidencial porque o PSB queria mas porque não possuía outra opção. Ainda que a candidatura de Eduardo Campos desse a impressão de ter chegado a seu teto sem mostrar-se competitiva — pelo menos antes do início do horário político — seu circulo próximo nunca deixou de acreditar em suas próprias chances de ganhar a presidência da República. A tese é conhecida: Eduardo seria capaz de bater Aécio no primeiro turno em função do desgaste tucano e, na segunda fase, carregar os votos do PSDB para vencer Dilma. Embora vista com relativa incredulidade fora do PSB, em suas fileiras essa visão era alimentada e repetida cotidianamente, numa narrativa que o jornalista Alon Feuerwerker, coordenador da campanha, conseguia defender com lucidez e argumentos racionais.

Se era assim com um candidato que nos bons momentos das pesquisas mal chegava perto dos dois dígitos de intenção de voto, não é difícil pensar que Marina possa conseguir a mesma coisa. Ela não só obteve o dobro em 2010 como deixou as pesquisas — quando oficialmente também deixou de ser candidata — com 27& das preferências. A Marina de 2014 não é a mesma de 2010. É aquela que pode ser vitaminada pelos protestos de 2013, que enxerga em sua candidatura um caráter anti-sistema e anti-políticos — e até agora não deu mostras de fazer qualquer objeção a presença de um núcleo de auxiliares ultra-conservadores que têm dado as cartas nos debates econômicos, aquela área de qualquer governo que envolve salários, emprego, programas sociais e outras decisões que afetam para melhor ou para pior a vida da população mais pobre.

O PSB tentou resistir a Marina e fez isso enquanto era possível imaginar que se tratava de uma perspectiva realista. Durou pouco. No ano passado, o senador Rodrigo Rollemberg, candidato ao governo do Distrito Federal, foi quem levou a Eduardo Campos o recado de que, após a reprovação da Rede no TSE, Marina Silva mandava dizer que queria preencher a ficha do partido — e ouviu, como primeira reação, uma pergunta que ficaria célebre: “você já bebeu?” Em 2014, candidato junto a um eleitorado fiel a Marina, qualquer que seja seu partido, Rollemberg foi um dos raros partidários de sua candidatura presidencial no primeiro momento. Outros dirigentes, com peso e liderança, vieram depois. Eles temiam ser prejudicados pelo boicote de Marina a suas alianças, como o acordo com Geraldo Alckmin em São Paulo.

A rendição a nova candidatura se fez em nome da mais preciosa e fugaz mercadoria da vida política. Não é o poder, como muitos pensam. Mas a perspectiva de poder, como já entenderam os profissionais do ramo. Se o poder impõe limites e restrições, pois é preciso fazer escolhas, definir prioridades e dizer “não”, por mais que isso seja desagradável, a perspectiva do poder contém uma aura de sonho, de alcance infinito. Foi por causa dela que os socialistas não puderam recusar o apoio a Marina e deram aquele passo em que mesmo uma eventual vitória também irá significar uma estranha derrota, com a qual não contavam — pelo menos agora.

Paulo Moreira Leite é diretor do 247 em Brasília. É também autor do livro "A Outra História do Mensalão". Foi correspondente em Paris e Washington e ocupou postos de direção na VEJA, IstoÉ e Época. Também escreveu "A Mulher que Era o General da Casa".

Pablo Villaça declara seu voto


Este é um ano fascinante para quem ama política como eu. Mas também um ano para destroçar os nervos.

É também um ano no qual me vi constantemente jogado de um lado para o outro. Há algumas semanas, manifestei imenso descontentamento com Dilma em função da abertura à bancada evangélica e, inclusive, anunciei que não conseguiria votar nela naquelas circunstâncias.

Embora seja comum que me chamem de "petista", não posso me considerar um. Há vários quadros do PT que me desagradam e que jamais teriam meu apoio. Não acho, por exemplo, que Lindbergh Farias seja um candidato digno de apoio ao governo do Rio (o que apenas deixa o povo do estado numa situação ainda mais desesperadora, já que não contam com um único candidato viável que preste). Lamentei imensamente ver Fernando Pimentel abraçando Newton Cardoso em MG e, por esta razão, não estou certo de que lhe concederei meu voto (mesmo abominando Pimenta da Veiga). Minha posição é sempre de esquerda - às vezes mais, às vezes menos -, mas o PT não é necessariamente minha primeira escolha nas eleições (e já cansei de votar em outros partidos para a prefeitura de BH e para os cargos de vereador e deputados estadual e federal).

Por outro lado, defendi a candidatura de Lula em 1989 (mesmo quando não tinha título de eleitor) e votei nele em todas as campanhas subsequentes. Também votei em Dilma em 2010. E, até anunciar que não poderia mais votar nela, há algumas semanas, estava certo de que votaria por sua reeleição.

Pois não sou político. Não consigo aceitar facilmente a ideia do pragmatismo. Opto sempre pela ideologia pura, mesmo que pouco prática. E, assim, mesmo que me dissessem que Dilma flertar com a bancada religiosa era um gesto eleitoral, eu não achava fácil aceitar isso.

Aliás, ainda não acho.

Porém, algo mudou. Este "algo" se chama Marina Silva.

Quando falei que não me sentia à vontade para votar em Dilma, semanas atrás, vários leitores perguntaram se eu votaria então em Aécio ou Eduardo Campos. Respondi que jamais votaria em Aécio ou numa chapa que tivesse Marina Silva.

E agora Marina é presidenciável. Não há mais o escudo da razão representado por Campos e por ótimos quadros do PSB. E a ameaça crescente da teocracia me assusta. Marina Silva diz que vai defender o Estado laico. Sei. Assim como Feliciano defendeu os Direitos Humanos - e vale lembrar que Marina DEFENDEU este último quando foi atacado por suas posições na CDH.

Lembrando que Marina é a candidata que disse que não era criacionista, mas que Deus é responsável por tudo, até pelas ideias de Darwin. E também lembrando que Marina disse não ter entrado no avião por "providência divina". Providência esta que não ligou pra Campos, pelo visto - e se há algo que me apavora é alguém com complexo de Messias, de "predestinação".

Assim, com Marina com chances de vitória (e a única alternativa viável sendo Aécio), volto a defender a candidatura de Dilma. Ciente, porém, de que, Dilma reeleita, vou bater insistentemente na tecla das portas fechadas para o lobby evangélico, que não deve ter espaço por representar um atraso social ao misturar dogmas irracionais com pautas de comportamento e jurisprudência inaceitáveis. (Alem disso, essa mídia reacionária é nojenta demais. Meu voto é também de oposição a ela.)

Estamos em 2014. As mulheres DEVEM ter palavra final sobre o próprio corpo, os homossexuais não podem mais viver à margem da sociedade, os avanços científicos não podem ser impedidos por credos infantis.

Mas volto a isso após as eleições.

E por que torno meu voto público (prática que repito em todas as eleições)? Por respeito aos meus leitores. 

Abomino atitudes de certas celebridades/jornalistas/vlogers que insistem em se apresentar como "imparciais" enquanto criticam insistentemente apenas um candidato e elogiam outro. Isto é tratar aqueles que os seguem como imbecis, como massa de manobra.

Prefiro desapontar aqueles que acreditam que meu voto é inaceitável (pois estes já tendem a se afastar de meus escritos mesmo) do que desrespeitar aqueles que, mesmo discordando, respeitam minha posição (e embora admire certas bandeiras de Luciana Genro, por exemplo, percebo que tenho que aprender certo pragmatismo e compreender que, neste momento, qualquer voto em outro candidato representa, na prática, um voto para Aécio ou Marina).

Assim sendo, se você é leitor(a) do que escrevo, agradeço pela honra e, como sinal de respeito, deixo claro que meu voto em 2014 é de Dilma Rousseff. Se acha difícil lidar com isso... nos vemos após as eleições.

Até lá, um grande abraço e bons filmes. E aos que ficam... obrigado mais uma vez por sua presença em minha vida profissional.

Desmentindo os números do Reitor e da Folha de S. Paulo sobre a Crise na USP

Carta Maior - Sean Purdy *


Como parte da sua tentativa de desmantelar a Universidade de São Paulo (USP), o Reitor Marco Antonio Zago anunciou na semana passada um plano de Demissão Voluntária e Redução da Jornada de Trabalho para 2.8 mil funcionários. Têm criticado o suposto alto número de funcionários ao longo da greve de 80 dias de professores, funcionários e alunos, declarando que a estrutura administrativa da USP é inchada. Também suspendeu concursos para professores e reduziu por 30% a verba para pesquisa e bolsas para alunos, dizendo que isto foi um corte da “gordura sobrando”. Todas essas políticas têm consequências desastrosas pela qualidade de ensino, pesquisa e aprendizagem na universidade.


A Folha de São Paulo têm apoiado a Reitoria da USP durante esse inteiro processo: abre suas páginas para Zago anunciar seus planos ao invés de ele discutir antes nos colegiados da USP (por mais que sejam pouco democráticos), dá pouco espaço no jornal para argumentos alternativos, propõe as piores medidas neoliberais para educação superior no Brasil, inclusive mensalidades para os alunos, e publica estatísticas equivocadas sobre a natureza da crise. Sobre mensalidades, a própria Ombudsman de Folha dedicou uma coluna no dia 17 de agosto à incapacidade de Folha admitir que usou dados imprecisos e manipulados numa reportagem de dois meses atrás para justificar a cobrança de mensalidades na USP. E o Reitor e Folha continuam usando dados errados para apoiar seus argumentos em favor de arrocho salarial e cortes de professores, funcionários e verbas para pesquisa e ensino.

O editorial de Folha de 19 de agosto repete uma estatística falsa que Zago mencionou numa reportagem com o jornal no dia 16 de agosto: que nas “principais” (Zago) e “conceituadas” (Folha) universidades britânicas em 2013 o número de alunos por servidor é um saudável 15 para 1. O Reitor e Folha mencionam que na USP tem 5,5 alunos por funcionário técnico-administrativo que é semelhante a da UFRJ que, segundo Folha, porém, “não é bem um exemplo de eficiência”. Por outro lado, o número de alunos por professor na USP é aproximadamente 15 para 1.

Comparações das universidades brasileiras com as de outros países são sempre problemáticas: contextos gerais e locais bem com trajetórias históricas são bem diferentes. Universidades desempenham um papel diferenciado dependendo do país e do período histórico. Mas pelo proposito de mostrar como os números do Reitor e Folha são equivocados, vale a pena conferir as seguintes estatísticas.

Uma simples consulta dos dados da Higher Education Statistics Agency do governo britânico (https://www.hesa.ac.uk/) desmente as declarações do Reitor Zago e de Folha. Em todas as universidades britânicas em 2013, houve 2.340.275 estudantes de graduação e pós-graduação, 196.845 funcionários técnico-administrativos e 185.535 professores. Isto é, 11,89 alunos por funcionário técnico-administrativo e 12,61 alunos por professor. De onde vem o número de Zago e Folha de 15 alunos para 1 funcionário nas universidades britânicas ninguém sabe pois não citaram a sua fonte. Porém, o mais confiante órgão de estáticas do Reino Unido diz que esse número é errado. 

Se olharmos nas quatro melhores universidades britânicas segundo os rankings do Times Higher Education World Rankings para 2013 os números de Zago e Folha pioram mais.

Na ordem de ranking são: University of Oxford, University of Cambridge, Imperial College e University College, London. Vamos supor que essas quatro universidades são as “principais” e “conceituadas” universidades no país citado por Zago e Folha.

Em 2012/2013, na Oxford, houve 4,92 alunos por funcionário e 4,3 alunos por professor. Na Cambridge, 4,4 alunos por funcionário e 3,9 alunos por professor. Na Imperial College: 3,4 alunos por funcionário e 3,8 alunos por professor. Finalmente,  University College, London tinha 3,8 alunos por funcionário e 5,5 alunos por professor. Portanto, todas essas universidades tinham mais funcionários por aluno que a USP e bem menos alunos por professor.

Não por acaso as melhores universidades do mundo têm mais funcionários e professores por aluno. No caso da USP, com sua importância central no estado e no Brasil, temos que também levar em conta os hospitais universitários, museus e outros institutos que contribuem com a missão geral da universidade pública. Além disso, o tamanho e a importância da USP têm crescido nas últimas duas décadas no cenário nacional.

O problema central da crise financeira na USP, que Zago e Folha recusam aceitar, é que a universidade aumentou enormemente nas últimas décadas sem que haja um aumento correspondente de verbas. Segundo os dados dos Anuários Estatísticas da USP, entre 1995 e 2012, na graduação, o número de cursos aumentou em 88,6% e em pós-graduação em 34,6%. Nesse mesmo período, o número de alunos de graduação aumentou em 77,6% enquanto alunos de pós-graduação cresceram por 102,3%. Mas o número de docentes aumentou somente em 15,9% e os funcionários em 11,5%! A USP também adicionou três novos campi sem o aumento de verbas prometido pelo governo estadual.

Porém, nem Zago nem Folha pedem um aumento nas verbas do estado de São Paulo, preferindo manipular dados para enfraquecer a universidade pública através de cortes drásticos aos funcionários, docentes e programas de pesquisa e bolsas para alunos. Será que de novo vai demorar mais dois meses para a Ombudsman de Folha desmentir os números dos próprios editorialistas do jornal?

(*) Professor de História, da Universidade de São Paulo (USP)

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A manipulação das pesquisas eleitorais


Não sem grande estarrecimento tenho acompanhado os comentários de muitos incautos que seguramente desconhecem completamente os fundamentos mais básicos da matemática aplicada e que do alto de sua ignorância numérica persistem em marretar a tecla da "manipulação dos números das pesquisas eleitorais", como se os resultados apresentados pelos institutos de pesquisa "não batessem e não fechassem".

Isso só demonstra total desconhecimento estatístico por parte de tais críticos, até mesmo quanto as estratégias para manipulação de resultados - o que, sem dúvida, existe.

Pesquisas manipuladas não o são em seus números finais, mas sim durante o processo de obtenção dos resultados, por exemplo através do treinamento dos entrevistadores, da escolha do momento de sua realização, da seleção das amostragens e do estabelecimento das chamadas "margens de erro", da natureza e da ordem de colocação das perguntas aos entrevistados, do tom de voz empregado em cada questionamento e até na forma de apresentação final dos dados obtidos.

Tudo muito mais sutil do que leva a pensar o enxame de críticas grosseiras que brigam com números na vã tentativa de relativizá-los, o que gera imensa vergonha alheia.

Assim sendo, quando pesquisas forem questionadas - o que inclusive me parece absolutamente necessário dada a desconfiança quanto a idoneidade de diversos institutos - deve-se contestar os métodos empregados para a obtenção dos resultados e não estes, simplesmente.

O analfabetismo numérico mostra-se, muitas vezes, um problema subestimado - como podem atestar as críticas que me motivaram a escrever este post e que infestam a internet, num desserviço inclusive para o nobre trabalho de desmascarar manipulações.

Teologia, Necrofilia e Sustentabilidade

Wanderley Guilherme dos Santos


Em 16 de agosto, a então candidata a vice-presidente Marina Silva declarou ao jornal Estado de São Paulo que não estava no jatinho em que morreu Eduardo Campos, segundo a reportagem, “por providência divina”. Foi sua primeira declaração sobre o acidente, repetida, com variantes, em todas as suas declarações posteriores.

Espantou-me a teologia implícita na espiritualidade propagada pela missionária Marina Silva. O ardor com que defende a sobrevivência do mais humilde ser terreno, animal, mineral ou vegetal, indiferente aos custos do bem estar do rebanho humano, imprimiu ao tema da sustentabilidade da saúde planetária um rigor imobilista de difícil adesão. Na parte humana de seus mandamentos, os vetos à mudança em costumes e aos experimentos científicos condenariam a espécie às tábuas atuais de causas mortis, intolerância social e crimes. A variante teológica de fundo parecia duramente reacionária.

Mas é ainda mais implacável a teologia da missionária Marina. Para preservar sua missão, providenciou um acidente que matou o candidato a presidente de sua coligação partidária (pois seu verdadeiro partido, o REDE, era declaradamente um mioma que esperava crescer no ventre do hospedeiro PSB), e todos os acompanhantes de Eduardo Campos, pilotos, repórteres, assessores, dos quais não se conhece a confissão religiosa, nem se haviam concordado em sacrificar a própria vida em nome dessa implacável e ególatra missão.

O noticiário tende a difundir a mesma necrofilia teológica, linguagem quea mídia escolheu para enquadrar o acidente e suas conseqüências político-eleitorais. As próximas pesquisas, menos debochadas, informarão qual o impacto imediato na distribuição das preferências pré-eleições.

Presidente do PSB chama Noblat de "direita alugada" e "idiota de plantão"

247 – O novo presidente do PSB, Roberto Amaral, rebateu o artigo de Ricardo Noblat que o acusa de conspirar contra a candidatura de Marina Silva. O socialista se diz “vítima de ataque”. Leia a nota oficial publicada nesta terça-feira: 


Hoje (19/08), fui agredido pelo pasquim eletrônico assinado pelo ex-jornalista Ricardo Noblat.

A direita alugada não compreende minha integridade. Irrita-lhe minha coerência política e meu papel como Presidente do Partido Socialista Brasileiro (PSB), de cuja refundação fui responsável em 1985.

Fui vítima de ataque, que me apontou como artífice de suposta conspiração contra Marina Silva.

Noblat pretendeu, em sua manifestação tornar verídica sua infundada tese, valendo-se de frase que atribuiu a Eduardo Campos, hoje morto.

Mortos não se defendem, tampouco atacam.

Logo que a tragédia da morte de Eduardo Campos se abateu sobre o meu País e meu partido, nessa ordem, começou o assédio para que o PSB anunciasse sua escolha óbvia para a recomposição da chapa presidencial.

A primeira cobrança foi feita ainda no aeroporto de Congonhas quando me deslocava para saber do nosso líder. O mau jornalismo já estava açodado na noite daquela quarta-feira fatídica. E não mais parou.

O partido e eu pessoalmente tomamos e mantivemos a decisão ética - incompreensível aos que carecem dessa matéria prima - de que só cuidaríamos de novos caminhos quando tivéssemos enterrado nosso amigo. Vivíamos um luto e pedíamos respeito.

Distribui nota com esses esclarecimentos, bem como dei fartas explicações aos que nos procuravam por definições.

Além da política, existem a vida e a morte, além da fofoca, o respeito humano pelos que se foram e pelos que choravam.

Os idiotas de plantão desconheciam que eu havia conversado com Marina Silva sobre esse procedimento, com meus colegas de Executiva Nacional e com a família de Eduardo Campos.

Sepultado o líder, não cessam as dores. Mas os entendimentos foram abertos, começando por conversar com Renata Campos e, em seguida, com Marina.

Amanhã será a vez dos partidos que integram nossa coligação.

Nesse meio tempo, ouvi os companheiros dirigentes e nossos principais quadros. Não cabe a um presidente socialista ter candidato, mas conduzir o partido ao encontro da melhor solução e esta é aquela que mais nos une e nos faz vencer o transe e a campanha.

Cabe-me construir, ouvindo. Buscar a melhor alternativa partidária para a cabeça de chapa e seu vice. É o que estou fazendo.

Cabe-me levar o resultado aos partidos coligados e submeter nossa proposta.

Tal decisão não é ato de exclusiva vontade do PSB. Muito menos pertence à imprensa, como alguns parecem acreditar.

E o PSB decide e só decide através de suas instâncias partidárias e meu dever é preservar essas instâncias e suas autonomias e exigir que elas sejam respeitadas.

Sempre procurei fazer a grande política, deixando a política miúda, da troca de favores, afagos e comissões para o baixo-clero. E não faço de adversários eventuais inimigos de carreira.

Tanto eu quando Eduardo sempre preservamos a amizade de Lula, de cujo governo fomos ministros dedicados. Isso jamais impediu um legítimo projeto político do PSB e inclusive disputar com ele as eleições de 2002.

O nazilacerdismo de Arnaldo Jabor

Por Miguel do Rosário

Ontem o dia começou difícil por causa do veneno injetado por Arnaldo Jabor no debate público. Rasgando fantasias democráticas, ele faz um discurso abertamente golpista, com uma defesa enfática da violência política.

Ele diz que não se trata de uma eleição comum, mas de um embate entre democratas e não-democratas.

Igualzinho ao que falavam os golpistas de 64. Alguém deveria lembrar a Jabor que a empresa para a qual ele trabalha pediu desculpas por apoiar o golpe de 64.

Ora, pediu desculpas e, no ano em que se completam cinquenta anos do golpe, volta a criminalizar a política exatamente como fez em 1964?

Há tempos que Jabor é golpista. Afinal, esta é a característica política mais profunda, arraigada e orgânica da Globo, e ele é âncora do Jornal da Globo, comentarista da CBN e colunista “mondo cane” do Segundo Caderno.

Jabor é o porta-voz da Globo, assim como Reinaldo Azevedo é da Veja.

Dois black blocs da direita. Com todo o respeito aos black blocs, que são cordeirinhos perto dessas raposas.

O caso de Jabor, no entanto, me parece o mais grave, o mais patológico.

O seu artigo de hoje é um caso psiquiátrico de imaturidade própria de bilionários golpistas de terceiro mundo.

Jabor quer reviver o lacerdismo, mas lhe falta a autenticidade de Carlos Lacerda, que nunca negou a política.

Lacerda filiou-se a um partido, disputou eleição e depois cometeu o erro, trágico para ele mesmo, de apoiar o golpe de 64.

Recentemente, em entrevista para o programa de Nassif na TV Brasil, o professor Wanderley Guilherme falou um pouco sobre Lacerda. Observou que o jornalista e político não era movido por ódio. O lacerdismo original tinha paixão, não ódio. Lacerda não era apenas um clown de segundo caderno. Foi governador, construiu escolas, fez túneis, articulava-se politicamente. Tinha seu próprio jornal.

Não era lacaio de nenhum barão da mídia.

Seu erro foi mergulhar de cabeça na onda de fascismo midiático que se alevantou. Dava entrevistas nas quais falava todo o tipo de mentira e grosserias contra o governo João Goulart. Lembro de uma, que li num microfilme da Biblioteca Nacional, em que Lacerda afirma que Goulart preparava um golpe bolchevique em 15 dias. Loucura total. O governo Goulart não preparava nenhum golpe, quanto mais um golpe comunista.

A violência que assistimos hoje de setores midiáticos contra Dilma é a mesma que havia contra Vargas e Jango.

Jabor não disfarça o seu golpismo. Ele compara o PT a Jango e emula o discurso golpista de 1963 e 1964.

Fala de Vargas e Brizola, e diz que não precisamos de varguismo e brizolismo.

Precisamos de quê? De Margareth Tatcher? De Ronald Reagan?

O que precisamos hoje é exatamente Vargas e Brizola. Grandes lideranças políticas, preocupados com o povo e que viveram, no inverno de suas vidas, experiências democráticas vitoriosas para o conjunto dos trabalhadores.

Ele fala em “desastre econômico”, o que nos faz voltar à guerra da informação.

Ora, não há desastre econômico nenhum.

O governo FHC, que Jabor louva tanto, entregou um país quebrado à Lula. A dívida externa parecia impagável. O desemprego galopava. A inflação estava várias vezes maior que agora. Éramos um país que devia ao FMI, ao Banco Mundial, ao mundo inteiro, e hoje nós temos reservas de quase 400 bilhões de dólares e articulamos a criação de um banco internacional, o banco dos Brics, que é maior que o BIRD e o Banco Mundial.

O desemprego é o mais baixo da história. Os salários, os mais altos.

Nunca houve tal quantidade de obras de infra-estrutura.

Que raio de desastre econômico é esse?

A mídia cria um Brasil paralelo, irreal, onde só acontece o que ela quer nos fazer acreditar que acontece.
Eu moro numa rua centenária e decadente do centro do Rio. Até pouco tempo, mesmo sendo otimista em relação ao Brasil, não botava muita fé nos destinos dessa parte do centro.

De um ano para cá, todavia, iniciou-se a construção de seis hotéis na minha rua. Seis hotéis! Com empresas boas, do ramo. O projeto mais próximo do meu prédio é um Íbis.

Considerando o quarteirão, são dezenas de obras, um barulho infernal que inferniza minhas manhãs outrora tranquilas.

Essa é a “crise que vivemos”.

Saí para dar uma caminhada hoje, e não parava de ouvir barulho de obras. O bairro inteiro está se transformando rapidamente.

De uns anos para cá, surgiram dezenas, centenas, de novas academias de ginástica no bairro, salões de beleza, praticamente todos os bares reformaram suas instalações, ou foram comprados por novos investidores.

Os anúncios de emprego nas paredes dos bares hoje é comum, e às vezes permanecem lá por semanas.
Ontem o Ministério do Trabalho divulgou o resultado do emprego formal até 2013. Confirmamos a teoria de que a geração de empregos novos começa a cair a partir de 2010, junto com a taxa de desemprego, pela razão óbvia de que, com menos desemprego, há menos mão-de-obra ociosa para gerar saldo de vagas.

Mesmo assim, houve um aumento em 2013 sobre o ano anterior, o que reflete a entrada de gente no mercado de trabalho que já tinha desistido de procurar emprego.
A mídia quer apenas fazer sensacionalismo com os problemas da saúde, mas não mostra os avanços na área. Não há programas médicos respeitáveis em nossa mídia, apesar de que, atualmente, a informação é fundamental para se prever inúmeras doenças. O Ministério da Saúde, e as secretárias estaduais, apenas conseguem veicular propagandas essenciais pagando preços cheios das tabelas de publicidade.

Na entrevista de Dilma no Jornal Nacional, o ponto que eu mais gostei foi quando ela fala de saúde pública. Num momento de interrupção de sua fala por Bonner, a Dilma lembra do sistema público de ambulância, o Samu, implantado nacionalmente pelo governo federal, ainda na gestão Lula.

Dilma mencionou o Samu atropeladamente, porque os entrevistadores não a deixavam falar. Ela conseguiu falar, porém, do Mais Médicos. Poderia ter falado também do Brasil Sorridente.

Na minutagem, registrou-se que Bonner ocupou mais de 40% do tempo da entrevista, interrompendo e atacando a presidenta.

Ele e Poeta foram grosseiros com todos os candidatos. Mas com Dilma, a postura foi de ódio deliberado, explícito.

A primeira pergunta foi uma tentativa de explorar a principal vitória da mídia contra o PT: o mensalão, um problema menor de caixa 2 que foi ampliado para se tornar um grande caso de corrupção.

O maior do Brasil? O maior da história da república?

O julgamento do mensalão foi um golpe da mídia.

Não interessa se os juízes foram nomeados pelo PT. Eles se venderam à mídia. Ayres Brito é um caso emblemático. Dias depois de sair da presidência do STF, assinou prefácio do livro de Merval Pereira, o colunista mais engajado na farsa que foi a Ação Penal 470. Em seguida, obteve uma sinecura no instituto Innovare, que pertence à Globo.

Sobre Joaquim Barbosa, sem comentários. Melhor virar essa página.

O mensalão foi uma jogada genial da mídia, porque gerou um tensionamento que radicalizou o debate. Os partidos envolvidos foram emparedados pelo moralismo midiático, pela lógica de linchamento, pelo sensacionalismo fascista.

A mídia promoveu uma injustiça e agora tenta faturar com as manifestações de protesto contra as arbitrariedades cometidas.

Mas Dilma se saiu bem, ao se eximir de fazer qualquer comentário, pois qualquer coisa que dissesse seria usada contra ela.

“Tenho minhas próprias opiniões, mas enquanto for presidente, não falarei nada”, defendeu-se.

À presidenta cabe evitar conflito entre Executivo e Judiciário.

A agressividade quase descontrolada dos entrevistadores soou risível. Não é a primeira vez que Bonner age como cão raivoso diante de Dilma Rousseff.

Dilma cresce sempre que é atacada diretamente.

A raiva hidrófoba de Bonner é a mesma que vemos em âncoras de extrema-direita de TVs fechadas nos Estados Unidos, que dão suas opiniões na Fox e concorrem a cargos políticos pelo partido republicano. Mas que não entrevistam presidentes.

Sobre os programas que tiveram início hoje, evitarei comentários sobre os de Eduardo Campos e Aécio. Sobre o primeiro, por respeito à tragédia. Sobre o segundo, porque é ruim demais. Se o PSDB ganhar, será com a força da Globo, não com a de seu marketing, pesado, opressivo, apresentando um Aécio esquisitão, olhando o nada. Bem o tipo do qual esperaríamos a implementação de medidas “impopulares”.

O de Dilma reflete um equilíbrio bem mais rico, mais delicado, entre conteúdo e emoção, política e marketing, do que em 2010, provavelmente em virtude de maior atenção da equipe para o debate nas redes sociais.

Entretanto, assistindo todos os programas, dei-me conta de uma coisa. Por que os partidos não tem espaço o ano inteiro nas tvs abertas? Por que as concessões públicas, que recebem bilhões de reais por ano em recursos estatais, não dão espaço para os parlamentos, executivo, judiciário, ministério público, sociedade civil, exporem seus projetos?

É necessário haver oposição, claro, e por isso mesmo cabe lhes outorgar, às forças de oposição, autonomia para criticarem o governo diretamente, sem o intermédio de mídias corrompidas ou ligadas, por laços de família ou comerciais, a ocupantes de cargos políticos.

Aliás, em seu artigo, Jabor fala da aliança do PT com os oligarcas do PMDB nordestino. Hipocrisia pura. Esses oligarcas só têm força porque contam com o apoio da Rede Globo em seus estados. Muitos são donos de canais de TV que repassam o sinal da Vênus.

Um dos políticos mencionados por Jabor, o senador Romério Jucá, líder do governo até 2012, acaba de abrir seu voto: Aécio Neves. Todos os outros representam setores políticos do conservadorismo aliados aos grandes meios de comunicação. Não me espantaria nada se votassem todos em Aécio. A direita brasileira, por medo do fantasma “bolivariano”, sempre se aproxima da Globo e do PSDB.

Ingrato, esse Jabor. São justamente essas figuras que travam qualquer debate sobre a democratização da mídia, e o fazem porque o status quo lhes beneficia. Eles são donos ou amigos dos donos da mídia em seus estados. São o lobby da Globo no Congresso.

O discurso contra o pessimismo de Dilma, por sua vez, só adquirirá um sentido completo se ele se desdobrar numa crítica à falta de um sistema de informação democrático. Só será compreendido plenamente pela população, se for feito em conjunto com uma convocação para que indivíduos e empresas tenham uma visão crítica da mídia, e procurem formar sua opinião a partir de fontes variadas.

Entretanto, já ficou claro, para qualquer analista econômico, que as profecias estão se auto-realizando. O nervosismo eleitoral, a radicalização ideológica natural à polarização, travam decisões de investimento. Momentos de polarização política cobram um preço alto, mas passam.

Também não é difícil prever que, definido o resultado eleitoral, seja qual for, os investimentos privados aumentarão com força, livres da insegurança causada pelo terrorismo político e econômico da mídia.

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